EPISÓDIO 12 · 5:45 ·
Bitcoin:
O Dia em que Tudo Mudou
Cada grande mudança na história tem uma data. A transição de um dinheiro gerido por instituições para um dinheiro regido por regras também tem a sua. É mais silenciosa do que as outras datas, e é precisamente isso que a torna diferente.
O episódio
Após o whitepaper surgir a 31 de outubro de 2008, Satoshi Nakamoto passou cerca de dois meses a responder a perguntas na lista de discussão cypherpunk. Como escalaria a rede? Como impediria que uma moeda fosse gasta duas vezes? Como evitaria ser dominada por um punhado de grandes mineradores? Cada pergunta foi respondida em detalhe, muitas vezes com código.
As regras tinham de ser diferentes de tudo o que existia antes. Vinte e um milhões de moedas, para sempre. Sem CEO para criar mais. Sem governo para as desvalorizar. Sem banco para congelar uma conta.
A rede que entrou em funcionamento a 3 de janeiro de 2009 continua a correr. A cada dez minutos escreve um novo bloco. A cada quatro anos reduz para metade a taxa a que surgem novas moedas. Cada um desses eventos acontece segundo um calendário que nenhum indivíduo, empresa ou país pode alterar.
Pode aderir à rede esta tarde sem pedir autorização a ninguém. Sem formulário de candidatura. Sem verificação de antecedentes. Sem saldo mínimo. Basta um software, um pouco de eletricidade e uma ligação à internet.
A 3 de janeiro de 2009, às 18h15, Satoshi lançou a rede e incorporou no seu primeiro bloco uma frase do Times de Londres desse dia: «Chancellor on brink of second bailout for banks.» Oito dias depois, um criptógrafo chamado Hal Finney anunciou no Twitter que estava a correr o software: «Running bitcoin.» No dia seguinte, o seu computador recebeu a primeira transação Bitcoin entre pares. A rede tinha o seu segundo nó, que é a diferença entre uma ideia e um sistema.
Momentos-chave
- 00:00 31 de outubro de 2008 — Whitepaper Enviado
- 00:30 Cada Pergunta Tornou-o Mais Forte
- 01:10 Não para Wall Street. Para Você.
- 02:05 As Regras Tinham de Ser Diferentes
- 03:00 O Código é a Verdade
- 03:35 Falta Carregar num Botão
- 04:35 Génese: 3 de janeiro de 2009
- 05:15 Hal Finney Adere — Já Não Estava Sozinho
Transcrição
A 31 de outubro de 2008 enviei o white paper e depois esperei. Alguém se importaria? Veriam o que eu via? Durante dias, quase nada. Depois chegaram as respostas, perguntas, ceticismo, objeções técnicas: como escala isto? E o double spending? Já se tentou antes. Bem. Estavam a lê-lo. Estavam a pensar. Nas semanas seguintes havia apenas uma questão: isto chegaria a correr? Se quiser resolver este puzzle e ganhar Bitcoin, precisa de todas as pistas. Subscreva agora para não perder o próximo episódio. Puseram em causa cada pressuposto. A rede não vai escalar, por isso otimizei a propagação de blocos. Os mineradores vão centralizar-se, por isso criei ajustes de dificuldade. O double spending é insolúvel,
por isso provei-o matematicamente. Mas e se eu estiver errado? E se houver uma falha que não consigo ver? Cada pergunta tornou-o mais forte. Cada dúvida obrigou-me a construí-lo melhor. Já não era apenas o meu projeto. Estava a tornar-se nosso. Não estava a construir isto para Wall Street. Não para banqueiros. Não para governos. Estava a construir para as pessoas que seguem as regras e mesmo assim perdem tudo quando as regras mudam. Para quem vê as suas poupanças apagadas por uma decisão em que nunca votou. Para todos a quem foi dito, de mil maneiras diferentes, que outra pessoa sabe melhor como controlar o seu futuro. Precisavam de uma saída, mesmo que
ainda não soubessem. O Bitcoin não é sobre mim. Nunca foi. Era sobre cada pessoa excluída, explorada ou ignorada pelo sistema. As regras tinham de ser diferentes. 21 milhões de moedas, para sempre. Nenhum CEO pode criar mais para salvar os seus amigos. Nenhum governo pode desvalorizá-las para financiar guerras. Nenhum banco pode congelar a sua conta por não gostar da sua política. Cada transação é visível. Cada regra é verificável. Cada pessoa é igual. Não precisa de confiar em mim. Não precisa de confiar em ninguém. O código é a verdade e o código pertence a todos. Se ao menos conseguisse lançá-lo. Se ao menos sobrevivesse aos primeiros dias,
como chamamos ao primeiro bloco de Bitcoin, aquele que deu início a tudo? Dezembro tornou-se janeiro. O mundo festejou. Eu continuei a trabalhar. Cada linha de código revista. Cada função testada. É isto. Quando carregar neste botão, não há volta a dar. E se bloquear na primeira hora? E se houver um bug que não vi? E se ninguém alguma vez correr isto? E se eu simplesmente estiver errado? Para todos os que descobriram tarde demais que a confiança nunca foi garantida, precisavam disto, mesmo que ainda não soubessem. 3 de janeiro de 2009, 18h15. Incorporei uma mensagem no primeiro bloco. A manchete do Times: Chancellor on the brink of second bailout for banks.
Que nunca se esqueçam por que existe. Está feito. Está vivo. Carreguei enter e dei ao mundo uma alternativa. A partir desse momento, ninguém o poderia parar. Nem eu. Nem uma empresa. Nem uma fundação. Nem um líder. Apenas código a correr, à espera de quem fosse corajoso o suficiente para aderir. Já não é meu. Pertence a quem precisar. Oito dias depois, uma mensagem. Hal Finney, um cypherpunk, um crente. Duas palavras que mudaram tudo. Já não estava sozinho. Cada nó que ficou online depois disso, cada pessoa que escolheu isto em vez de desistir, fazem todos parte da mesma decisão: parar de esperar por permissão. As seed words são suas. O puzzle é
seu. Resolva-o e prepare-se para o que vem a seguir.
Conceitos introduzidos
- O primeiro bloco (bloco génese)
- O primeiro bloco da rede Bitcoin, minerado a 3 de janeiro de 2009, contendo como timestamp e mensagem uma manchete sobre os resgates bancários.
- Um limite máximo de emissão (21 milhões)
- A regra inscrita no software do Bitcoin que estabelece que nunca existirão mais de 21 milhões de moedas.
- Uma rede, muitos guardiões (nó completo)
- Um computador que mantém a sua própria cópia completa das regras do Bitcoin e verifica cada transação em conformidade, sem precisar de autorização de ninguém.